O Ataque no Vale dos Ventos



Ana, a dona da Estalagem do Vale dos Ventos, encheu novamente as canecas dos dois peculiares guerreiros na mesa. Rosatel e Sadur chamariam atenção dos demais clientes da estalagem de maneira negativa se não houvessem lutado bravamente para defender o local na noite anterior. Era bastante improvável que um halfling e um meio-dragão compartilhassem a mesma mesa, mas ali estavam eles, recuperando suas energias após o violento combate da véspera.

A manhã após o ataque passou com tranquilidade. Apesar da palpável tensão no ar devido ao receio de um novo ataque dos orcs da tribo de Gorth, nada ocorreu. Sadur e Rosatel passaram a manhã toda conversando sobre suas experiências e histórias de batalhas e combates. O halfling descobriu que o meio dragão havia sido um oficial no exército de Uzamar dez anos atrás, mas desde a derrota do Império pelas forças Dragorianas, passou a trabalhar como mercenário protegendo caravanas pelas estradas do Reino de Algárdia. Sadur já havia viajado por muitos lugares e conhecia as mais inóspitas e longínquas regiões.e gostava muito de contar sobre suas aventuras. Rosatel não pôde evitar alguma simpatia pelo improvável companheiro. 

Quando o dia se aproximava do sol alto, uma caravana foi avistada na estrada, vindo da direção de Dragórios. A caravana era composta por uma carruagem e duas carroças. Todos os seus doze integrantes usavam mantos escuros, aparentemente feitos de couro, que escondia seus rostos. A caravana já estava muito próxima quando alguém notou que havia algo errado com aqueles caravaneiros.

Rosatel ouviu gritos vindo dos fundos da estalagem mas não teve tempo para averiguar pois os integrantes da caravana subitamente sacaram arcos e adagas e avançaram contra a propriedade. Quando o halfling cruzou seu olhar com àquele que estava na vanguarda do ataque, um calafrio percorreu sua espinha. Aquilo tinha uma silhueta humana, mas sua pele estava pútrida e deixando exposta algumas áreas ósseas em determinadas partes da face. Haviam apenas duas órbitas vazias onde deveriam haver olhos, iluminadas por um ponto luminoso amarelado no centro de cada orifício.

Então Rosatel piscou e agora ele apenas via milhares e milhares de halflings enforcados, crucificados e mutilados, espalhados por toda extensão visível da estrada. O céu havia se tornado amarelo, assim como a grama, as árvores, as pedras e tudo mais que ele pudesse avistar, exceto pelo vermelho vivo que escorria dos corpos inertes dos incontáveis halflings mortos espalhados por toda a estrada, formando um tapete rubro e aterrorizante.

_ Acorde Rosatel! - Um tapa forte o atingiu na nuca e o forçou a piscar novamente. Ele viu Sadur, que empunhava uma espada ao seu lado. O meio dragão tirou o escudo das costas e se preparou para o novo embate. Rosatel chacoalhou a cabeça e percebeu que estava bem no meio de uma batalha. Os quatro guardas da estalagem lutavam contra o grupo de agressores que havia chegado na caravana e a estrada estava caótica. Sadur golpeou outro invasor, derrubando-o.

_ Precisamos dos teus machados! São malditos mortos vivos! - Gritou Sadur com alguma raiva na voz. Rosatel viu a criatura decrépita que havia acabado de ser atingida pelo meio-dragão levantando-se novamente. A luz amarelada nas órbitas oculares causavam um mal estar e uma angústia imediata, mas Rosatel se concentrou e começou a golpear os invasores com toda sua força.

Rosatel, Sadur e os guardas derrubavam os agressores, mas as criaturas voltavam a se levantar e, um a um, os guardas sucumbiram ao cansaço e foram abatidos. Um grupo de hóspedes saiu de dentro da estalagem em pânico, seguidos por um segundo grupo de mortos-vivos, aparentemente maior do que o grupo da caravana. Alguns hóspedes também lutavam, mas também estavam sucumbindo. Rosatel reconheceu a voz de Erberek no meio da multidão, gritando pragas e ordens. Procurou pelo anão e viu que ele empunhava uma espada impressionante, com a guarda cravejada em jóias e a lâmina adornada com runas. Ele notou que os mortos-vivos atingidos por seus golpes não voltavam a se levantar.

_ Sadur, a espada! Precisamos da espada! - Gritou o halfling, apontando para Erberek.

Entretanto, assim que acabou de falar, vários hóspedes e guardas mortos no combate estremeceram no chão e se levantaram, bloqueando a passagem e tirando o anão do campo de visão dos dois guerreiros. Ouviu-se novamente a voz de Erberek em um grito de agonia e então, silêncio. Rosatel percebeu que eles estavam ficando cercados, mas sua única chance era obter àquela espada. Avançou contra a parede de mortos vivos, mas Sadur o segurou pelo braço e impediu seu ataque.

_ Estamos cercados, precisamos fugir! - Sadur puxou o halfling na direção dos estábulos, mas apesar de ser pequeno, Rosatel era forte demais para ser movido. Sadur levou um tranco quando tentou correr segurando o halfling e foi surpreendido com aquilo. Alguns mortos-vivos alcançaram a dupla e eles golpearam os inimigos de volta, derrubando-os e liberando novamente o caminho para os estábulos. Desta vez Sadur não puxou Rosatel pelo braço, mas o halfling correu ao seu lado mesmo assim.

Pegaram os dois primeiros cavalos selados que conseguiram encontrar. Os mortos-vivos também correram e tentaram os cercar, para a surpresa dos guerreiros. Precisaram derrubar novamente dois inimigos antes de conseguirem montar os cavalos e partir em disparada pela estrada. Rosatel ainda atingiu mais uma das criaturas para abrir caminho pela estrada e a dupla galopou o mais rápido que conseguiu em direção ao Leste, afastando-se da famosa Estalagem do Vale dos Ventos.

Rosatel olhou para trás e viu muita fumaça negra saindo das janelas da estalagem, prenúncio das violentas chamas que já se alastravam pela construção. As criaturas malignas agora apenas observavam imóveis o halfling e o meio-dragão se afastando velozmente pela estrada.

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